O HUMANO COMO CAMINHO DA IGREJA
Lembro de uma historinha da infância que nossos pais e avós contavam para ensinar-nos certos valores:
“Uma pessoa havia morrido. Era muito boa, mas devia passar um tempo no purgatório, devia ainda purificar-se; não estava pronta para entrar no céu. Pouco tempo depois, Jesus foi buscá-la.
Ao sair, ou melhor, ao ser elevada, as outras pessoas, suas companheiras, seguraram nas suas vestes, pensando na chance de também sair de lá. Mas esta, sacudiu as roupas. Então, Jesus disse: - Não! Você ainda não está preparada! É necessário ser mais solidária”. Claro, uma história cheia de simbolismos.
Há um pensamento que diz: ”Não queira subir sozinho; não há felicidade sem partilha”. O ser humano quer elevar-se; quer o reconhecimento, quer ser valorizado, quer o respeito, a liberdade, a glória, pois tem necessidade de um a mais, de buscar, de projetar e projetar-se, de transcender... Nós queremos subir, mas, quando o excesso nos faz egoístas, rigorosos com os outros, intolerantes, dominadores, ativistas e... até escravos destas nossas necessidades, isto não é bom.
Nós somos seres contingentes, isto é, limitados: nascemos, precisamos de muitos cuidados, crescemos quando alguém cuida de nós, partimos... morremos. Mas somos ao mesmo tempo, seres de desejo. Seres de desejo ilimitado. Quem preenche esse vazio profundo dentro de nós? O que nos satisfaz plenamente e nos traz descanso?. Porque, sendo finitos, desejamos o infinito?
A nossa fé cristã nos diz que Deus é infinito, é a perfeição, a beleza total, a bondade, a misericórdia infinita e que nós somos imagem e semelhança dEle , por isso, carregamos no íntimo, às vezes sem perceber, este desejo de infinito, este desejo de bem, de bondade, de beleza que marcam a origem, a Pátria de onde viemos que é o seio de Deus. Diz um autor cujo nome não lembro, mas que nos faz recordar Santo Agostinho: “Somos devorados pelas saudades infinitas de Alguém que nunca vimos, de uma Pátria que jamais habitamos”. O Cântico de Isaias vem ao encontro desta nossa realidade humana cheia de saudades:” O teu nome e a lembrança de ti resumem todo o desejo da nossa alma. A minha alma suspira por ti de noite, sim, no meu íntimo, o meu espírito te busca”.
Portanto, se é verdade que desejamos a nossa glória é também verdade que desejamos, como Deus, como quem nos fez, amar com gratuidade, amar de graça, amar pela alegria de amar. Amar e ser amados na liberdade. Isto parece simples e até é, mas a gente, dia - a - dia, precisa ir ao encontro deste desejo profundo de sermos mais semelhantes a Ele no amor que já habita em nós.
E, enquanto de um lado queremos subir, Deus faz o caminho inverso: Contemplemos a imagem de José, Maria e o menino. Ele, Deus, conforme diz a leitura de Filipenses, sendo mais que tudo, sendo divino, faz o caminho inverso: desce, se encarna, se faz gente, uma criança indefesa, tão igual a nós que muitos, a maioria, não o reconheceram, melhor dizendo, não o reconhecemos: “É o filho de José, o carpinteiro, o filho de Maria” ... nada mais!
“Sendo de condição divina, diz Paulo, não se apegou a ser igual a Deus, não se apegou à sua divindade... esvaziou-se de si mesmo e assumiu a condição de servo, tomando a semelhança humana”. Em tudo foi um de nós, menos no pecado. Jesus foi também tentado; só não cedeu à tentação . Não foi contra a vida, não foi egoísta, deu tudo de si... e, quando não entendido, ou invejado, permaneceu fiel à sua Palavra, ao seu testemunho de que o Pai é bom , não negou o que havia pregado e assumiu a morte, dizendo: “Pai, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem”. “Hoje, diz ao ladrão, estarás comigo no paraíso”.
E Deus, ainda hoje, continua apostando na gente, tem paciência. Estamos, muitas vezes, depredando a vida, a vida humana, a vida vegetal e animal, enfim, a vida do planeta. Estranhamos Deus, porque Ele parece impassível, não cobra a todo instante. No lugar dEle, já teríamos dito, há muito tempo: - Basta, isto foi demais!
Mas, Ele continua fazendo crianças nascerem, faz-nos ver a aurora , nos encanta com o por do sol e as estrelas, quando tiramos tempo para contemplá-los, nos encanta e nos atrai quando vemos atos de solidariedade, de amor, de amizade, de bondade, de perdão etc... Só espera que, na liberdade de filhos. O amemos e amemos também os outros como presentes, como dons.
Nós temos dificuldade de entender esta gratuidade sem fim de Deus, mas, Ele aposta em nós. Para que? Para fazermos coisas extraordinárias? Não! Para vivermos de maneira extraordinária a ordinariedade da vida, ou, se quisermos, para viver de maneira ordinária a extraordinariedade da vida, para vivermos o cotidiano que Ele nos deu. Para fazermos do lugar, da casa onde habitamos, um espaço agradável, onde cada ser vivo, mesmo não sendo humano, tenha o direito de ser o que é, onde cada pessoa possa experimentar que é bom viver!
Nesses dias, um grupo de cristãos cantava num encontro de formação na Chácara Pentagna, Valença, RJ, aquela canção tão conhecida de Ganzaguinha, que diz mais ou menos assim: ”O que é a vida, meu irmão? É maravilha ou é sofrimento? Há quem fale que a vida da gente é um nada no mundo... Há quem fale que é um divino mistério profundo, é o sopro do Criador numa atitude repleta de amor. A vida é isto, é aquilo! ... Vida, sempre desejada, por mais que seja errada, ninguém quer a morte, só saúde e sorte... Eu fico com a pureza das crianças: É a vida! É bonita, é bonita e é bonita!”
Na verdade, tudo o que Deus quer é a nossa vida, a nossa boa vida, a vida boa e plena. Como cristãos, como Igreja que somos, não nos é solicitado fazer coisas grandes demais. Até que, se pudermos, tudo bem, mas a glória, a alegria de Deus, nosso Pai/Mãe é a pessoa viva, com a vida digna. Segundo Santo Irineu, um dos Padres da Igreja: “A glória de Deus, é a vida do homem”. É o homem vivo, bem vivo, no sentido pleno da vida.
Então, “nos humanizarmos, nos tornarmos conforme o sonho de Deus é o caminho que precisamos sempre trilhar como Igreja. O humano como caminho da Igreja” , diz a carta encíclica de João Paulo II, “O Redentor do homem”. Buscar a nossa humanização, no sentido da semelhança a Deus e a seu filho Jesus e ajudar cada ser humano para que seja mais humano, com vida digna e capaz de promover, também ele, a vida do outro e todas as formas de vida.
Paulo, na carta aos irmãos de Filipos, pede: ”Por toda ternura e compaixão, levai à plenitude a minha alegria, pondo-vos acordes no mesmo sentimento, no mesmo amor, numa só alma, num só pensamento, nada fazendo por competição e vanglória, mas com humildade, julgando cada um os outros superiores a si mesmo, nem cuidando cada um só do que é seu, mas também do que é dos outros.
Maria, a quem celebramos no dia da sua Assunção ao céus, é a “Maria da Glória”, porque glorificou a Deus com sua vida. Vida de mulher que cuida do filho, que com José é companheira, que ajuda as vizinhas e vai ao templo . Faz a sua parte e confia-se a Deus na alegria e na dor, nas certezas e na escuridão. Por isso, Deus a glorificou, a elevou até Ele.
Maria é a mulher, segundo a fé católica, mais próxima do sonho de Deus. Por isso, é tida como a “Mãe da Igreja” . Mãe do povo que ainda está a caminho da terra prometida, da “terra sem males”, que deve ser construída já, aqui e plenificada na eternidade junto com Deus e com todos. AMÉM!!!
Irmã M. Nelsa Cechinel
Valença, 15 de agosto de 2008
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