OS HOMOSSEXUAIS TÊM VOCAÇÃO
Apresentamos um pequeno livro, mas significativo e precioso, de José Lisboa. Enfrenta um problema importante da nossa Igreja em geral e da pastoral vocacional em modo especifico. Pensamos, com isso, fazer um serviço oportuno aos Agentes de Pastoral.
Colocando o título acima para esta breve apresentação, desejaria sinceramente que não apareça estranho e, ainda menos, sensacionalista. Se fosse, seria um motivo a mais para aconselhar a leitura do livro, pequeno, mas precioso, que José Lisboa publicou faz um ano sobre o acompanhamento das vocações homossexuais. Um livro que merece uma particular atenção.
O autor, bem conhecido no Brasil como teólogo e apóstolo das vocações, quer ajudar os animadores Vocacionais a acompanhar, com inteligência, respeito e amor, as pessoas que receberam da natureza (por isso de Deus) uma sexualidade específica, difícil muitas vezes a ser entendida e aceita, e que têm, elas também,. o dom e o compromisso de uma vocação a ser realizada.
Claro que têm vocação!
O termo “vocação”, uma vez reservado para indicar as vocações de especial consagração, está reconquistando, não sem esforço, seu sentido mais universal e profundo. Todos temos “vocação”. Deus Pai cria cada um dos seus filhos e de suas filhas com amor e com um projeto particular, importante pela vida deles e pelo serviço ao mundo.
Os homossexuais têm, sem dúvida, como dom de Deus as duas vocações mais universais: a vocação à vida e a vocação a serem cristãos. Têm, também, a vocação á santidade e um chamado a uma forma própria de vida e de serviço.
A dificuldade para alcançar a santidade, o ideal de cada vocação, é de todos. Tentações, fraquezas, caídas... ameaçam continuamente a todos, até as pessoas mais generosas e dedicadas. Não temos que estranhar que isso aconteça, também, com os nossos irmãos e irmãs homossexuais. Não pode ser motivo para desprezar ou marginalizar.
Cristo veio mesmo a procurar os que a sociedade civil e religiosa do seu tempo tinha excluído e condenado, para recolocá-los ao centro da atenção.
Por muitos motivos os homossexuais têm direito e necessidade de ser aceitos na comunidade e ajudados a realizarem seus dons e colocá-los a serviço de todos.
Não é fácil entender e acolher os homossexuais
Ao enfrentar o tema da sexualidade humana e, sobretudo, da homossexualidade, que é um capítulo não insignificante desta realidade complexa, facilmente nos sentimos condicionados. Aspectos pessoais de medo e insegurança, preconceitos sociais, condicionamentos estruturais nos atrapalham. A sexualidade, foi observado, é o setor da realidade humana mais problemática, mais difícil a ser integrado na pessoa, facilmente ameaçado pela imaturidade, por reações instintivas, bloqueios, regressões...
Conhecer em profundidade a própria sexualidade e aceitá-la com serenidade é um objetivo importante. É um requisito necessário para desenvolver uma maturidade pessoal e colocar as próprias riquezas afetivas a serviço de um relacionamento social satisfatório e construtivo..
As ciências humanas, nestes últimos tempos, nos ajudaram a entender um pouco melhor a problemática complexa da sexualidade Por sua vez a teologia pastoral e moral procura, com certo esforço, aproveitar destes novos conhecimentos
Quando entramos, porém, no campo da homossexualidade as dificuldades aumentam. Os mesmos especialistas do setor se encontram divididos entre si e sem muitas certezas. Os preconceitos sociais e as posições não equilibradas são freqüentes e perigosos.
Lisboa defende, no primeiro capítulo do seu livro, a necessidade de uma maior capacidade de acolhida para com as pessoas homossexuais. Na sociedade e, também, (sobretudo?) na Igreja eles não encontram uma aceitação fácil. Sofrem rejeições e desconfiança instintiva. A prescindir do seu comportamento.
Não será possível uma pastoral específica e um acompanhamento vocacional dos homossexuais, sem uma profunda e serena aceitação das pessoas e da sua realidade. Já para o interessado não é fácil descobrir serenamente e aceitar a própria sexualidade. Facilmente, depois, vive muitos conflitos ao longo da sua história evolutiva,. Dificuldades pessoais e sociais complicam uma identificação e uma estima de si. Sentidos de culpa, inseguranças, esforços de remoção são provocadas pela não aceitação do ambiente familiar e social.
O trabalho, não fácil, mas necessário de uma pastoral em geral e de uma ajuda vocacional especifica tem, antes de tudo, realizar dois objetivos:
- Uma aceitação de si, por parte da pessoa homossexual. Ela deve ser ajudada a ler a própria realidade à luz da fé e de uma visão psicológica adequada. Só assim será possível uma aceitação serena e uma abertura para colocar as riquezas e energias pessoais a serviço de sua realização e de uma missão específica na igreja e na sociedade.
- Uma melhor aceitação por parte da comunidade. É urgente ajudar as comunidades eclesiais, para que se tornem mais acolhedoras, menos desconfiadas diante destes irmãos. Por parte da nossa sociedade há, sem dúvida, um esforço de uma nova compreensão e de uma nova atitude,. Nós, da Igreja, corremos o risco de aparecer os menos abertos, os mais difíceis em mudar atitudes. Não se trata de julgar, de condenar, mas de acolher com compreensão, sem preconceitos, com uma caridade que sem fechar os olhos, sem justificar o que é negativo, sabe acolher, dar confiança e alimentar a esperança no amor e na misericórdia do Senhor.
Pe. Lisboa trata disso no segundo capítulo do livro, com decisão e convicção. Não podemos negar que muitas reações dos homossexuais, até as mais exageradas, sejam conseqüências de um ambiente vivido como muito hostil e discriminatório.
Faltamos de pessoas competentes e, sobretudo, animadas de atenção, estima, compreensão e muita paciência para trabalhar com estes nossos irmãos. Encontrá-las e prepará-las é um desafio não fácil, mas urgente e indispensável para uma comunidade cristã.
Estamos, sem dúvida, de acordo com a seguinte afirmação do autor: “O acompanhamento de vocacionados e vocacionadas homossexuais requer, mais do qualquer outro, a presença constante de pessoas especialistas em questões humanas, capazes de com eles identificar o estagio no qual se encontra a vida afetiva e sexual dos mesmos. A partir desta constatação, será possível traçar um itinerário que contemple com realismo o caminho feito até então e traçar as pistas para o futuro” (p.40).
Um autêntico acompanhamento vocacional é possível e dá certo quando o educador e o interessado sabem viver na transparência e na honestidade, desejando o verdadeiro bem da pessoa, sem ilusões e decisões irresponsáveis.
Admiramos no autor este equilíbrio entre abertura e responsabilidade, entre confiança e atenção crítica à realidade. A rica documentação, com a qual acompanha suas afirmações, demonstra seriedade e o desejo sincero de prestar um serviço autêntico às pessoas em causa.
Homossexuais para vocações consagradas?
É este o assunto do terceiro capítulo do nosso livro. Uma resposta, seja no sentido positivo que negativo, não pode ser imediata. Excluir que o Senhor possa chamar a uma vida de total consagração, na vida religiosa ou no sacerdócio ministerial, seria limitar o poder da graça. Os documentos oficiais da Igreja, também, não o excluem.
Precisa, antes de tudo, conhecer em profundidade o tipo de afetividade do candidato. Á vezes se trata de ambivalência ou de indefinição sexual. Parece que nossa cultura torne sempre mais difícil para um adolescente e até para um jovem alcançar uma clara identidade sexual. A homossexualidade não é, depois, uma realidade unívoca e uniforme. Reduzi-la em duas categorias só, como faz o autor, parece simplificá-la demais. Há graus diferentes de profundidade e muitos modos da pessoa se relacionar com sua sexualidade. É importante, sem dúvida, conhecer também a experiência sexual do candidato na sua vida passada.
A vocação a uma vida de total consagração supõe a castidade (capacidade de “possuir” a própria sexualidade e colocá-la a serviço de um específico projeto de vida) e o dom do celibato (a graça de renunciar, pelo Reino, ao matrimônio e a sua atividade sexual). Sem estes valores a pessoas é continuamente ameaçada no seu equilíbrio ou tem que desgastar energias demais, psíquicas e espirituais, para manter-se casta. Um exigente caminho de formação e um discernimento responsável poderão verificar os sinais de vocações e as condições indispensáveis para realizá-la.
Lisboa insiste em alertar superiores e agentes de pastoral, para que não se iludam e não crêem fáceis ilusões nos candidatos, com o perigo de futuras e inevitáveis desilusões. A falta de vocações ou a necessidade de preencher lugares vazios não justifica a tentação de admitir candidatos de olhos fechados ou de favorecer tentativas destinadas ao fracasso.
O mesmo autor convida a duas atitudes:
- Não ter pressa em chegar a uma decisão,
- Não aconselhar com facilidade um compromisso de celibato ou de ministério, que mais cedo ou mais tarde vão se revelar pesados demais e causar fracassos, desilusões, perigos para os outros...
Vocações leigas
È esta a escolha mais freqüente dos nossos irmãos e irmãs homossexuais. Dentro de um apelo universal à santidade e de um compromisso cristão, todos são convidados a encontrar seu lugar, dentro da Igreja e no serviço ao mundo. Sem dúvida eles possuem, para isso, dotes humanos e espirituais preciosos.
Ajuda-los a encontrar seu lugar de vida e de serviço é compromisso, não fácil mas precioso, do agente de pastoral vocacional.
Para este trabalho de acompanhamento Lisboa, no quarto capítulo do seu livro, aponta quatro pressupostos, que precisa ter em consideração:
- A vida real é complicada. Pretender simplificá-la para que corresponda a uma própria visão ou a normas determinadas, também oficiais, pode levar à hipocrisia ou farisaísmo. O amor acolhe e ajuda a acolher os irmãos e irmãs como são, para acompanhá-los “com sabedoria, carinho e decisão”.
- O acompanhamento vocacional deve ser personalizado. É norma fundamental de cada acompanhamento que pretenda libertar e não condicionar. Mas precisa respeita-la, sobretudo, quando se trata de pessoas que constituem, como define o autor, “uma singularidade dentro da singularidade” (p.66).
- Precisa respeitar a consciência da pessoa. Deus fala no coração e na consciência da pessoa. E lhe fala dentro da complexidade do seu ser. Não impõe pesos que ela, no esforço sincero de responder ao seu Deus, não possa suportar. Precisa ajudar, iluminar, estimular um crescimento e um fortalecimento, sem se substituir à pessoa que é acompanhada, sem condená-la sem apelação.
- Favorecer uma educação para a liberdade e a autonomia. Todo vocacionado, o homossexual também, deve chegar a assumir a sua vida, a viver sua vocação na liberdade.
Vocacionado e educador têm que viver na fé e caminhar orientados por ela, com a consciência de uma presença viva e atuante de Deus na história. Ele dá aos seus filhos e a suas filhas a graça necessária para que possam realizar a vocação que lhes está apresentando.
Na escolha, depois, de um ministério leigo específico, será necessário ter em consideração as justas exigências que este serviço apresenta e a possibilidade de vivê-lo com fruto para a igreja o do mundo. Uma pessoa não pode escolher ou ser ajudada a escolher um ministério por motivos egoísticos, de promoção pessoal ou como compensação as suas carências. Por parte do acompanhador são necessárias sinceridade e responsabilidade.
Concluindo
O livro, que queremos aconselhar sinceramente aos acompanhadores vocacionais, e, também, a todos os agentes de pastoral, aos pais e aos educadores interessados, tem muitas colocações importantes e de grande atualidade. Precisa fazer do mesmo uma leitura atenta e sem preconceitos. Nesta matéria as prevenções, bloqueios, rejeições podem ser fáceis, mas nascem mais de condicionamentos nossos, que da realidade homossexual em si.
Temos ainda muito para fazer neste campo: pessoas para ajudar, atitudes de respeito e de acolhida para criar nas comunidades, espaços a serem colocados à disposição...
Compreensíveis, por isso, não só o tom apaixonado do autor, mas, também, algumas expressões, que podem soar como provocatórias e em tom de cruzada.
Se o serviço de pastoral vocacional conseguirá assumir este setor de acompanhamento vocacional, a Igreja poderá ganhar em estima e ajudar melhor muitos seus filhos, que sofrem e lutam para viver melhor e realizar sua vocação de vida.
José Lisboa, O ACOMPANHAMENTO DAS VOCAÇÕES HOMOSSEXUAIS, ed. Paul us, São Paulo, 2007.
Pe. Ângelo Fornari
|