Ref. bíblica: Jo 4, 1-15 - Lc 24, 13-35 Introdução O caminho de Emaús e a história do encontro com a Samaritana, embora sendo de contextos históricos, sociais e literários antagônicos indicam novos caminhos e a releitura destes textos podem ser considerados como “ícone” bíblico interpretativo para o momento de redefinição da Igreja no século XXI. Carisma e instituição religiosa constituem dois pólos estruturantes deste acontecer histórico no terceiro milênio. Nesse sentido, a instituição não poderá se desviar da inspiração carismática fundacional nascida da Palavra de Deus. A palavra convoca, oferece espaço de realização, de revitalização, abre-se para o diferente, para o outro num diálogo transparente e lança-se ao futuro como projeto de vida plenificada – “Escolhe pois a vida” (Eclo 30, 15). O caminho se faz caminhando. Pelo caminho os discípulos são interpelados pela Palavra (Lc 24). Do poço brota água. Por causa do poço, a água se torna “viva” (Jo 4) – água pura e perene. No encontro com a mulher samaritana, assim como no encontro com os discípulos de Emaús. Jesus toma a iniciativa de dialogar: pergunta aos discípulos “o que foi” e para a mulher samaritana fala da “sua sede” – Ele próprio é “Água viva”. A mulher samaritana chega ao poço na “hora sexta” – ao meio-dia – hora do encontro consigo mesma, porque exatamente ao meio-dia não existe o subterfúgio da “sombra”, não há possibilidade de se projetar na “sombra”, se justificar. É a pessoa consigo mesma. A mulher chega carregando o seu cântaro vazio. Perguntamos: Em que direção nossos cântaros estão sendo levados? Que tipo de poço estamos buscando? Que tipo de poço é a Instituição Religiosa? Pois bem, iremos usar o símbolo do poço para refletir a Instituição Religiosa. Todavia, é bom destacar que o fundo do poço é tão importante e vital quanto o poço inteiro. Daí a necessidade do diálogo entre Carisma e Instituição. Gosto do desafio de confrontar com o fundo do poço. Ele é mais importante que toda estrutura. É do fundo que surge o mistério da água. A água brota do fundo. Sem água a terra torna-se seca e árida. “A minha alma tem sede de vós, minha carne também vos deseja, como terra sedenta e sem água!” (Sl 62, 2-9) Suponhamos que o poço inteiro para nós é a Instituição Religiosa (Institutos, Congregações, Ordens), com seus mais variados carismas e ministérios. A memória de cada detalhe do poço como, por exemplo, a estrutura externa (visibilidade na Igreja, na sociedade e no mundo), as cores (criativas, atraentes, opacas, antigas ou renovadas?), o lugar onde nasceu, sua origem, onde está presente hoje (a quem serve?), as bordas do poço, a estrutura interna, as paredes revestidas, o tamanho até o fundo, enfim, todos os detalhes de um poço do qual brota água. Vamos sugerir algumas pontuações acerca do poço para recriarmos na memória outras reflexões e sugestões que por ora aparecerão na nossa reflexão e poderão ser úteis na reflexão pessoal e comunitária. Lembremos, pois, que o nosso imaginário possui uma potência simbólica muito rica e imprevisível, um verdadeiro dinamismo da própria vida. A acolhida desses aspectos do nosso imaginário (psique) nos faz compreender que a relação com Deus não é um fato abstrato. Pontuações para a compreensão simbólica do poço: Assim como a experiência do poço, a experiência do caminho para “Emaús”, também nos leva ao encontro deste mistério “Pão Vivo – da Vida Eterna”. Emaús é o caminho da própria interioridade, onde se entra na kénosis da koinonia. Mais importante que descer ao fundo do poço é não ficar atolado, é não bitolar, é não se fechar no próprio mundo. Chegar ao fundo do poço é chegar no limite de nossas forças humanas, é nos dispormos ao despojamento e à entrega total na palma da mão de Deus. É deixar-se transcender pelo espírito, sem forçar e nem relutar, nem de mais e nem de menos, senão afunda mesmo. Quem chega ao fundo do poço, já passou por todas as etapas humanas da vida, já experimentou todas as lições humanas e as carrega como segredo de vida, como experiência a priori, como sustento na fé. 2. Analogia do diálogo Jesus toma a iniciativa do diálogo nos dois momentos. No caminho de Emaús ele pergunta: “O que foi que vocês estão conversando...”. A mulher samaritana chega ao meio-dia no poço para tirar água e Ele pede: “Dá-me de beber”. Em Emaús, Jesus quer fazer parte da conversa dos discípulos (quer inserir) na realidade deles. Com a Samaritana, rompendo qualquer preconceito Jesus quer experimentar da mesma água que os Samaritanos bebem (quer inserir) na realidade da mulher samaritana. Os discípulos interpelam Jesus – Tu és o único morador de Jerusalém que não sabe o que aconteceu. A mulher também interpela Jesus – Como, sendo judeu tu me pedes de beber, a mim que sou samaritana?” Por outro lado, os discípulos de Emaús não reconheceram Jesus porque estavam como que “cegos” e o consideraram como um forasteiro desinformado. A mulher identifica Jesus como um judeu comum e atrevido a pedir-lhe água. No caminho de Emaús, Jesus explica as Escrituras começando por Moisés e por todos os Profetas. Com a samaritana, Ele é direto – Se conhecesses o dom de Deus e quem é que te diz: Dá-me de beber, tu é que lhe pedirias e ele te daria água viva. Prossegue o debate de ambos. Os discípulos de Emaús dizem: “Fica conosco, Senhor! É tarde e a noite vem caindo”. A mulher: “Senhor dá-me dessa água para que eu não tenha mais sede”. Esta mulher se sentia vazia e tinha necessidade da Palavra de Jesus, da motivação do Mestre de Nazaré, do apoio e da chance de refazer sua vida, recomeçar tudo, ser feliz e trabalhar na construção do Reino. O bonito desta cena é que ela abre sua vida para Jesus, fala de sua realidade “escreve” sua autobiografia, revê seu passado, procura integrar seu presente e apresenta sua verdadeira sede de um futuro, de uma nova vida. Sede de voltar correndo para a cidade e anunciar, comunicar aos outros, ser testemunha, ser profetiza, apóstola de Jesus e exercer seu ministério junto aos seus. Os discípulos também fizeram o mesmo e “voltaram correndo para Jerusalém” – Missão. Perguntamos: E os diálogos na vida fraterna em comunidade? Temos inserido na realidade de nossos irmãos e irmãs? Acolhemos o diferente? Qual é a nossa missão? Os discípulos sentem o coração arder, reconhecem o Ressuscitado na Koinonia – comunhão, partilha... A mulher sente seu coração arder pela força das palavras de Jesus e a atração de sua amizade. Essa mulher carrega dentro de seu íntimo uma história de vida, um passado e um presente incerto, o futuro ela desconhecia até aquele instante. Simplesmente a presença amiga de Jesus, sua convicção de fé e sua liberdade interior, livre de qualquer preconceito e de qualquer resistência transformam aquele encontro num encontro sedento de vida nova, de novas perspectivas para aquela “Mulher” que está “sem forma e vazia” (Gn 1,1). Numa ótica espiritual vamos rezar com o livro do Gênesis: “No início a terra era sem forma e vazia e o espírito do nosso Deus se movia sobre a face das águas, foi Ele quem criou o céu dos céus, fez a separação das águas, da terra seca, foi Ele quem criou os luminares, formou a natureza, criou o homem, criou a mulher...”. Perguntamos: Por que fomos chamados por Deus? Por que pertencemos a uma Instituição Religiosa? Qual o “espírito” de nossos Institutos? Conclusão Aberta O “Espírito” que se move na profundidade do nosso ser deve nos despertar para novas formas de vida. O chamado de Deus nasce muitas vezes de situações incompreensíveis, e em circunstâncias tão humanas e concretas. Por isso mesmo, a alegria do testemunho e a convicção da fé de ter sido chamado por Deus são verdadeiros referenciais para aqueles que desejam discernir sua vocação. A leitura da realidade presente visa, pois, descobrir na própria realidade os desafios para que possamos encontrar à luz da Palavra de Deus e da experiência da Comunhão Eucarística as respostas adequadas para as interpelações da vida, das “multidões cansadas e abatidas como ovelhas sem pastor...” (Mt 9, 35-38). Eis a nossa responsabilidade como operários e operárias na grande messe do Senhor. A nossa responsabilidade como animadores e animadoras do “Evangelho vocacional”. Sejamos operários e operárias na defesa incondicional da vocação à vida. Que a graça, a Fé e a Esperança nos acompanhe, fazendo nossas as palavras do Profeta: “Há setas indicando o caminho, por isso aumente o espaço de sua tenda, finca bem as estacas, estenda a lona, estique as cordas...” (Cf. Isaías 54,4).
Pe. Geraldo Tadeu Furtado, RCJ
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