O Ano Vocacional não acabou !

A sensibilidade humana é uma das expressões do próprio olhar sensível de Deus sobre a realidade buscando a sintonia quebrada de seu sonho. Para tornar esse sonho realidade Deus se revela em Jesus de Nazaré e n’Ele o ser humano descobre que o sonho do divino para com suas criaturas revela-se em sinais de vida e vida plena (cf Jo 10,10).  Este não é apenas um sonho, mas o projeto do próprio Deus para com o humano visibilizado na perspectiva do Reinado de Deus. No caminhar histórico de sua vida Jesus, chamou homens e mulheres a participarem na construção deste Reinado onde todos compartilhassem da comum dignidade dos filhos e filhas de Deus, na partilha dos dons transformados em serviços a favor da humanidade.

Na vivência deste seguimento, os cristãos e cristãs ao longo dos séculos foram construindo o rosto de uma Igreja onde serviços e ministérios se tornaram parte integrante de sua “resposta à proposta que é Jesus”.

Atualidade do Ano Vocacional

O Ano Vocacional celebrado em 2003 lançou um convite a Igreja no Brasil: “avançar para águas mais profundas” (Lc 5,4). Avançar rumo à meta de uma Igreja que passasse a considerar de maneira mais consciente e incisiva a dimensão vocacional como uma dimensão co-natural e essencial de sua vida e missão. Uma verdadeira Ekklesia, “assembléia dos chamados”, onde todos, na vivência partilhada da única missão (evangelizar), testemunhassem a comum vocação cristã na interação dinâmica e criativa entre os vários serviços e ministérios.

O crescer da consciência batismal introduz os cristãos e cristãs num contínuo processo de discernimento do projeto de Deus e a busca de sua vontade. A vivência concreta desse projeto desemboca no assumir de uma vocação específica, como também pode desembocar numa atuação ministerial determinada.

Neste sentido, seja a opção por uma vocação específica ou um ministério não-ordenado insere-se na dinâmica do seguimento de Jesus e na maneira como Ele compreendeu e viveu seu ministério, mas realiza-se também a partir de um efetivo processo de discernimento vocacional. Pois, como afirmou Paulo VI na Encíclica Evangelii Nuntiandi, “os leigos podem também se sentir chamados ou vir a ser chamados para colaborar com os próprios Pastores no serviço da comunidade eclesial, para o crescimento e a vida da mesma, pelo exercício dos ministérios muito diversificados, segundo a graça e os carismas que o Senhor houver por bem depositar neles”.

Os ministérios são dons de Deus concedidos à Igreja pelo Espírito (cf. 1Cor 12,4-11), pois na origem dos mesmos e da Igreja, está a iniciativa divina, ou melhor, o chamado, a dinâmica vocacional. Pode-se afirmar então que os ministérios como dons do Espírito nascem da necessidade da comunidade, na comunidade e para a comunidade e, como tal se enquadram numa chave de leitura vocacional. Ao trazer para o hoje, essa resposta não pode ser pensada fora da perspectiva do movimento de Jesus e das comunidades primitivas. Pois, tais comunidades são normativas às demais por terem sido uma “resposta à proposta que é Jesus”[1] .

O ministério de Jesus

O movimento desencadeado por Jesus, composto por muitos discípulos e discípulas como anunciadores do Reino, se insere no contexto histórico de seu tempo, de um povo oprimido e subjugado, e, dos vários movimentos que nasceram a partir dessa realidade: os movimentos messiânicos e os proféticos; seu movimento era tido como um deles.
 
O anúncio do Reino, na perspectiva do movimento de Jesus, não se trata de uma evasão do mundo, mas a encarnação do mesmo na vida do povo gerando um processo de conversão, pessoal e comunitário, a partir das exigências desse anúncio.

Jesus compreendeu e inseriu seu ministério na mesma linha apresentada pelo profeta Isaias ao falar do “Servo Sofredor” (cf. Is. 35, 5-6; 42,1-4; Mt 12, 15-21; Lc 7,22-23), pois ele não se apresentou como um Messias cheio de glória, mas aquele que serve (cf. Mt 20,24-28; Lc 22,27; Jo 13,12-16), que veio proclamar e instaurar o “Ano da Graça do Senhor” (cf. Lc 4,18-19).  Após ser batizado assumiu publicamente tal programa, tornando-se um pregador itinerante e manifestando o Reino de Deus através de seus atos e palavras.

O teólogo Eduard Schillebeeckx afirma que para Jesus, “o Reino encontra-se onde a vida humana se torna ‘realizada’, onde se cumpre a ‘salvação’ dos homens e das mulheres, onde a justiça e o amor começam a prevalecer e as condições escravagistas terminam. Jesus descreve a realidade do Reino de Deus como participação comum em um banquete festivo e esplêndido, do qual podem participar os estropiados e os deficientes, os pobres e os marginalizados”[2] . A comprovação bíblica para tais afirmações, pode ser encontrada a partir do próprio nascimento de Jesus que, despojando de sua condição divina fez-se um de nós, totalmente desprovido de poder e glória (cf. Lc 1,26-38.2,7-8; Fl 2,6-11).

Jesus é aquele que proclama bem-aventurados os pobres (Mt 5,3) e se coloca a seu serviço (cf. Mt 8,1-4; 12,9-14; 15,29-31; Lc 4, 38-39; 9,11). A  proclamação  das bem-aventuranças (cf. Mt 5,1-12) é a síntese da identidade de seu movimento. No evangelho de Mateus, a autoridade de Jesus, apresentado como Messias e Filho de Deus, está muito acima de todos os outros mestres (cf. Mt 7,29). As bem-aventuranças são as “exigências fundamentais que Jesus impôs aos discípulos e como expressão de valores cristãos. Pressupõem a experiência pessoal de Jesus e a Boa Nova do Reino que está próximo e, assim, oferecem conselhos práticos sobre como responder a Jesus e sua pregação”[3] .

Para entrar na dinâmica de seu movimento, é necessário uma escolha: “Ditosos os que escolhem ser pobres, porque eles têm a Deus por rei”[4] . A tradução pode parecer forçada, mas é a tradução mais expressiva; para integrar o grupo de Jesus é necessária a opção de tornar-se pobre. O chamado dos primeiros discípulos confirma radicalmente tal fato (cf. Mt 4,20.22; Mc 1,18.20; Lc 5,11.28), quem não faz essa passagem fica fora de seu movimento (cf. Mt 19,16-22).

Nosso compromisso

É do ministério de Cristo que nasceram e se estruturaram os ministérios, como respostas concretas ao seu chamado para o anúncio e manifestação do Reinado de Deus. Nesse sentido, o assumir de um ministério comporta as mesmas exigências, inclusive seu discernimento, de uma resposta vocacional. Dito de outra forma: as prerrogativas de um discernimento vocacional e ministerial são as mesmas, pois o assumir de uma vocação é a conseqüência de um assumir ministerial.

Somos chamados, enquanto seguidores e seguidoras de Jesus, a participar na construção de uma comunidade eclesial onde as diferenças de serviços, ministérios e vocações sejam um reflexo da beleza e diversidade de nosso comum chamado a Santidade. Chamado que nos coloca a serviço da vida onde ela se encontra negada ou excluída. Sendo assim, é importante que não haja entre nós, a busca por esta ou aquela vocação ou ministério como promoção pessoal ou “camuflagem” de nossas fragilidades humanas.

O caminho da santidade não acontece fora de nossa condição humana, mas passa exatamente por meio de nossa fragilidade e vulnerabilidade humana, ou seja, somos convidados a entrar na estrada da conversão contínua. Pois, como escreveu o papa Bento XVI por ocasião do Dia Mundial de Oração pelas vocações em 2006, para respondermos ao “chamado de Deus e pôr-nos a caminho, não é necessário ser já perfeitos [...] A santidade da Igreja depende essencialmente da união com Cristo e da abertura ao mistério da graça que age no coração dos crentes”.  

A Igreja necessitou e necessita de evangelizadores e evangelizadoras enxertados em Cristo; discípulos e discípulas de Jesus Cristo! Evangelizadores que sejam sal e fermento da Boa Nova numa realidade onde, como afirma João Batista Libânio, há uma confusão entre universalização (de valores) e globalização (destrói os valores universais, quebra as fronteiras regionais e massifica a singularidade humana) e, a presença de um sagrado selvagem, misturado com fetichismo e cultos exóticos, que reflete uma mentalidade mágica e mítica onde o destino substitui a razão.

Neste contexto continuam atuais e proféticas as palavras do papa Paulo VI em 1967, em sua mensagem pelo 4º Dia Mundial de Oração pelas Vocações, sobre o tipo de presbíteros que a Igreja envia. Palavras que podem ser estendidas a todos aqueles e aquelas que são chamados e enviados a trabalhar na “Vinha do Senhor”. Mas, é ao mesmo tempo uma conclamação a todos os animadores e animadoras vocacionais a não cruzarmos os braços e ir a todas as praças e chamar.

“As vocações são a esperança da Igreja em ordem a sua consistência institucional e a sua eficiência espiritual [...] Aqui esta o drama: a Igreja não envia por tal sagrado serviço, profissionais mercenários; não organiza uma rede de publicitários peritos; a Igreja envia voluntários, envia homens livres e com certeza não pagos em relação ao risco, a fadiga e ao mérito de sua obra; envia homens singulares: pobres e generosos, livres de toda coação externa e interiormente vinculados pelo mais sacrossanto dos vínculos, aquele do amor consagrado, único, casto, perene. Envia seguidores de Cristo, que a Ele dão tudo; envia jovens cheios de fogo e de criatividade, que intuíram a mais alta definição da vida: uma aventura do amor Divino; envia humildes heróis que acreditam no Espírito Santo e que pela Igreja de Cristo, como Cristo, estão prontos a dar a vida: ‘Cristo amou a Igreja e se entregou por ela’ [...] Os envia ao povo de Deus: aos pequenos, aos pobres, aos sofridos, aos cansados, aos discípulos do Reino, e também, as missões, aos afastados, a todos; e vão. Que beleza!”.

 [1] RUIJS, R. Estruturas Eclesiais no Novo Testamento à Luz  da Vontade de Jesus. REB, v. 33, fasc. 129, p. 35-60, [março], 1973. p. 37-38.
[2] SCHILLEBEECKX, E. Por uma Igreja mais humana.  São Paulo: Edições Paulinas, 1989. p. 31-32
[3] BERGANT, D.; KARRIS, R. J. (org.). Comentário bíblico. São Paulo: Loyola, v. III, 1999.  p. 17.
[4] MATEOS, J.; CAMACHO, F. O evangelho de Mateus. p. 54

Ir. Clotilde Prates de Azevedo, ap